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A era do consenso

23.05.20

Se há palavra que marcou a presidência de Cavaco Silva, especialmente se tivermos em conta o que lhe saía da própria boca, era consenso. Tudo debaixo do sol sobre a terra a que se define o território de Portugal, tinha de passar e ser consensual. Contudo este mito do centrão, não morreu com o fim do seu mandato, continua bem vivo. Tenho de atender que também não começou com ele, mas tentou ser popular nas suas mãos.

A noção que qualquer decisão política possa ser consensual é ridícula. Por diversas razões:

  1. Tudo é político, seja intencionalmente ou até conscientemente.
  2. Em termos pragmáticos, um estado, em todas as suas decisões tem de escolher quem são os perdedores e os ganhadores.
  3. O conflito político é por definição não-consensual.
  4. A luta de classes existe.
  5. Um compromisso não é consenso, pelo contrário.

Quando digo que o estado escolhe quem perde ou quem ganha, não significa que a lei, decreto, projecto, etc. seja explicitamente claro sobre quais serão os seus resultados. Tanto que pode-se, ou os agentes legisladores e executantes, desconhecer os eventuais resultados. Há fenómenos complexos em sociedade, mas isto não invalida que a consequência de praticamente todas as leis impliquem que alguém, um grupo, uma classe, uma entidade, etc. perca e outrem ganhe.

Se o conflito entre as diversas ideologias e facções políticas desse para consensos, então porque não existe uma convergência clara - ou uma tendência - em que todas as forças políticas se alinham? A resposta é simples, é porque as crenças fundamentais destes, das quais derivam as restantes, são antitéticas e irreconciliáveis.

Nada exemplifica melhor o problema do conflito político que a luta de classes. Ela existe, quem o nega limita-se a tentar definir as classes fora de existência, mas a sociedade não funciona dessa maneira. Redefinir de forma a que todos os cidadãos façam parte da mesma caixinha, tipicamente isto é feito em linhas nacionalistas, significa que para essa sociedade esse termo não tem significado. Uma definição que engloba todos, quando existem divergências internas imensas, é absolutamente inútil. E a noção que podemos todos apertar as mãos e colaborar felizmente, como no final do Metropolis, não passa de uma fantasia proto-fascista que não pode acontecer. Este é um caso, em as condições para tal já deviam ter ocorrido pelos próprios defensores, e nunca se observou. Nem se observará, encontramos aqui um caso de contradição de meios materiais, isto pode-se traduzir literalmente num problema físico. É impossível.

O compromisso é simplesmente um acordo entre duas ou mais partes em que, idealmente, ambas as partes conseguem algo em linha com o que pretendem, mas não o que pretendem. Ou seja, para ir nessa direcção têm de dar em troca algo que não querem. Existem excepções, onde uma força verga outra, e basicamente são as intenções da primeira que contam, só que isto, por definição, não é compromisso, e muito menos consenso.

Um exemplo prático disto ocorre no presente, sobre um tema de conversa não raro neste blog, a TAP. Vamos encontrar consenso sobre o que fazer com a empresa? Não. Porque é impossível conciliar um lado que quer deixar essa entidade falir, com outra que não o quer. E não existe compromisso possível, porque devido ao coronavírus até empresas completamente privadas necessitam - porque não há escolha no nosso sistema - de injecções de dinheiro do estado, e isto também inclui nacionalizações. Não existe um meio-termo entre falir e salvar a empresa.

Quem sugira deixar que esta vá à falência, ignora intencionalmente na sua argumentação que o estado português já detém metade do capital da empresa. Isto significa que ao falir, esse capital deixa de existir, deixem-me explicitar: é perder esse capital. Ou seja, é deitar a perder todo e qualquer investimento alguma vez feito. Mesmo que a TAP não tivesse sido uma empresa que foi criada pelo estado (no antigo regime, mas isso não invalida o ponto), e tivesse o estado só adquirido os 50 % de uma empresa que deixa de ser completamente privada em 2016, essa aquisição teve custos. Ao deixá-la falir, está-se a esbanjar essa aquisição. Notem que isto consegue ser ainda pior que a privatização da empresa. É literalmente política de terra queimada.

Só deixo como nota que os principais proponentes da falência da TAP, são os mesmos que fosse ela completamente privada tocariam o soneto inverso. Ou seja, isto nada tem a ver com a viabilidade ou utilidade da companhia, mas sim por um ódio irracional à propriedade pública. Tanto mais curioso, quando neste caso a entidade continua a ser privada, só que tem metade do seu capital em mãos públicas.

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Publicado às 14:38

Desmistificar testes de QI

21.05.20

Deixo-vos a grande compilação para ser mais fácil de navegar ao longo as oito partes, por ordem:

Desmistificar testes de QI I: Inteligência

Desmistificar testes de QI II: A história dos testes de QI

Desmistificar testes de QI III: Factor G

Desmistificar testes de QI IV: Correlação e causa

Desmistificar testes de QI V: Era uma vez, uma poll no twitter

Desmistificar testes de QI VI: Normalização e o efeito de Flynn

Desmistificar testes de QI VII: Um péssimo indicador

Desmistificar testes de QI VIII: Aceitação científica

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Publicado às 13:27

Desmistificar testes de QI VIII: Aceitação científica

21.05.20

Finalmente chegamos ao último post, que será sobre aceitação científica, e quem insiste em falar num não-assunto.

Para demonstrar a aceitação científica, ele decide por alma de "vai-se lá saber o quê" citar um comunicado, e não um artigo de 1994, originalmente publicado no Wall Street Journal, que não é uma publicação científica. Da mesma forma que o editorial escrito por Linda S. Gottfredson não é científico, e sim uma mera uma defesa do infame livro The Bell Curve publicado no mesmo ano, e assume-o logo na primeira linha do texto do documento. Além disso este documento é tão obcecado com a sua (ir)relevância que a maior parte do seu título é literalmente sobre quantas pessoas assinam o documento.

A citação que ele apresenta deve ser metida aqui logo à partida, porque voltamos ao problema exposto no 1.º post, e prova que todo este exercício era escusado caso o Álvaro compreendesse o que lê, e lhe escorresse qualquer coisa das palavras que cita:

(A inteligência é) uma capacidade mental muito geral que, entre outras coisas, inclui a capacidade de raciocinar, planear, resolver problemas, pensar de forma abstracta, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e aprender com a experiência. Não é apenas aprender através de livros, uma capacidade académica específica ou capacidade de realizar testes.

Primeiro é uma capacidade geral, que não é definida especificamente, mas sim um aglomerado de vários factores - tal como eu já havia descrito em oposição a ele - ao qual se excluem arbitrariamente: aprender através de livros e a capacidade de realizar testes... a capacidade de realizar testes... espera. O quê? Então como é que medimos QI sem recorrer a testes? Há aqui algo fundamentalmente errado, não há?

Hello darkness my old friend....

Por fim, deixo a nota que ele apela que no artigo a autora pediu a 100 dos seus colegas para assinarem o comunicado, dos quais 52 o fizeram, e os restantes 48 recusaram. Que ele passa a descrever da seguinte forma:

Das pessoas que não assinaram (48):

- 11 disseram que não sabiam o suficiente para tomar uma posição;
- 4 concordavam com o comunicado na maioria, mas não queriam ser associados com o comunicado ou outros assinantes;
- 4 concordavam com o comunicado mas tinham medo de consequências de o assinar;
- 6 não disputavam o conteúdo mas sim a maneira como foi apresentado.

Contudo a Tabela 1, não descreve estas rejeições bem desta forma, para não apontar que o sumatório destes números só dá 25. E os restantes 23? Não existem? Existem, e a informação é explicitada no comunicado, tando que a deixo de seguida:

Gottfredson.png

Mas porque existiam autores com "medo" de se identificarem com Gottfresson? Muito simples, 2 anos antes, a Universidade de Delaware onde ela trabalhava tentou processá-la de forma a que não recebesse fundos de investigação num total de 267 mil dólares. Porque haveria a universidade de o fazer? Bem, porque o dinheiro viria da Pionner Fund, uma organização que serve para propagar ideias racistas e nazis. Fundos que a universidade falhou em travar. Muito interessantes autores que aparecem para defender o livro de Hernstein e Murray.

E para já ficamos por aqui meus lindos, haverá mais quando eu puder despender tempo.

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Publicado às 11:46

Desmistificar testes de QI VII: Um péssimo indicador

20.05.20

Finalmente iremos analisar a tentativa de alguém cientificamente iletrado, que não leu o que citou, em tentar provar as suas suposições que não têm fundamento.

O nosso mestre de paquímetros de serviço começa a tentar responder à pergunta "Como sabemos que é um bom indicador?" da seguinte forma:

Podemos comparar o comportamento geral de pessoas com alto QI e pessoas com baixo QI e concluir que as pessoas com alto QI se comportam como pessoas inteligentes.

E sabemos isto como? Voltamos às perguntas sobre crime e inteligência da parte 2. Não sabemos. É mais uma afirmação arbitrária, mas felizmente a partir daqui começamos finalmente a ter fontes palpáveis para trabalhar.

Referindo um artigo de meta-análise de Strenze de 2007, apresenta o que exponho a seguir que revela interessantes pontos sobre iliteracia científica:

fig14.pngPor alguma razão inexplicável, ele decide só apresentar a correlação média. E notem que isto não é um screenshot, é uma tabela feita à mão. Nem indica o que está aqui a medir (já agora não é QI, apontem que isto será um padrão tão comum que irá aborrecer) nem as unidades utilizadas (neste caso não importam porque são probabilidades correlações entre os factores mencionados).

O mais curioso é ter reescrito a tabela e ter trocado o termo "inteligência" utilizado pelo autor, por QI. As escorregadelas freudianas são muito curiosas. Contudo voltamos ao correlação não implica causa. E tanto é, que a correlação pode ser lida inversamente: quem tem rendimentos mais elevados tem um QI mais alto. O que é que isto prova? Absolutamente nada.

Segue-se outro estudo, desta vez de Whalley e Deary de 2001. Onde passa a indicar a seguinte conclusão:

Lawrence J Whalley e Ian J Deary descobriram que quanto mais inteligente uma pessoa é na infância, mais tempo vive. Por exemplo, uma pessoa com um QI de 115 tinha 21 % mais probabilidade de estar viva aos 76 anos do que uma pessoa de inteligência média.

O que é que isto prova em relação a QI ser bom indicador? Nada. Novamente voltamos à hipótese já implicada nas partes anteriores: se alguém tem rendimentos mais elevados, a probabilidade apresentar um QI mais elevado é também maior - derivado de ter provavelmente um melhor acesso a educação - logo qual é a surpresa que via mais anos que aqueles que têm menos recursos? Nenhuma.

O artigo seguinte é Denissen et al. 2011 d'onde retira o seguinte:

Outra maneira de saber é pedir a indivíduos para darem a sua opinião sobre a inteligência de outros e de si mesmos, e ver de que forma estas avaliações se relacionam com o seu QI.

Desculpem, o quê? Agora é uma questão de mera opinião popular sobre pares? É este o padrão necessário para quantificar QI? Então e toda aquela conversa do factor G? Agora questiono-me o que a minha audiência dirá do QI que o Álvaro terá, já que o padrão é assim tão patético.

Algo me diz que ele não leu, ou não sabe ler (compreender) o artigo que citou. Porque os autores nunca utilizaram dados de QI directamente no artigo! Como passarei a citar das conclusões é um estudo sobre percepção de inteligência, e não um valor métrico objectivo ou algo que se lhe pareça:

Descobriu-se que a reputação de inteligência é fortemente associada com gostos pessoais ('dar-se bem') no início do processo dos indivíduos se conhecerem, e passa a ser positivamente correlacionada com sucesso académico. Além disso, eles criaram a sua própria "realidade social", onde são vistos como inteligentes pelos membros do grupo em associação a variações no sucesso académico e o abandono escolar, independentemente do teste de inteligência e antes dos estudantes ter feito um único exame. Finalmente, o nosso estudo permite vislumbrar que no processo de negociação de identidade existem associações entre auto-avaliação e reputação dos pares nas fases iniciais em que os indivíduos se passam a conhecer, e eventualmente as pessoas tendem a conformar a sua auto-avaliação com as reputações nas fases mais tardias. Em geral, este padrão de resultados demonstra a utilidade de uma perspectiva sócio-analítica na análise de personalidade e processos sociais.

Ou seja, nada sobre inteligência ou QI. O artigo seguinte de Bailey e Hatch de 1979, também não tem nada a ver com QI, mas sim com percepção de inteligência com amizades. Algo me diz que alguém andou a piratear artigos do Sci-Hub aleatoriamente sem os ler, só porque achou que encontrou citações dos resumos descontextualizadas que pensou que validavam a sua posição merdosa e anti-científica.

Amanhã teremos o final, que terá uns twists muito chocantes e reveladores.

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Publicado às 11:22

Desmistificar testes de QI VI: Normalização e o efeito de Flynn

19.05.20

Chegamos então ao último post antes de analisarmos os artigos mencionados pelo nosso fanático de paquímetros favorito. Os gráficos e valores mencionados ao longo este post foram retirados deste importante artigo científico.

Quando os testes de QI são feitos eles são normalizados. O que significa que uma amostra de pessoas é testada, e à posteriori os valores do teste são ajustados para que a sua média seja igual a 100. Ou seja, é uma prescrição e não uma descrição dizer que o QI médio é 100. Não poderia ser outra coisa quando são literalmente martelados para ter esse valor. Novamente voltamos ao: isto é completamente arbitrário.

O que acontece quando alguém que fez um teste de QI, e repete o teste de QI da versão anterior? Em média, os seus resultados são mais altos! Isto é um problema, porque não é suposto acontecer. O tal factor G não é suposto flutuar dependendo de que versão do teste estamos a medir, senão é porque este não está a medir algo inerente e fixo aos avaliados. Isto significa que se repetirmos um teste de QI antigo numa população culturalmente capaz de o compreender, a média será superior a 100 quando comparado com o teste equivalente feito umas décadas antes, vejamos a primeira citação do artigo:

A média dos testes de QI têm subido substancialmente e consistentemente em todo o mundo. Estes ganhos têm ocorrido na maior parte de um século. Essencialmente desde que este tipo de testes foram inventados. O rácio de ganho em testes de QI padronizados de largo espectro contabilizam ganhos de 3 pontos de QI por década, e consegue ser ainda maior em certas medições especializadas.

O Efeito de Flynn é o aumento sistemático de testes de QI em países. Os resultados são muito reveladores como podemos ver:

flynn1.png

O valor médio dos testes de QI americanos aumentaram cerca de 20 pontos desde da primeira referência em 1932 até 1933, se o teste utilizado for desta primeira referência. Um efeito mais pronunciado encontra-se no caso dos Países Baixos com os resultados dos rapazes de 18 anos, que completam o teste como parte da integração no exército, neste caso ocorreu um aumento de 21 pontos em 30 anos entre 1952 e 1982.

Segue-se uma comparação do teste de Stanford-Binet realizado pelas crianças yankees em 1932 (1.ª curva) vs. o grupo equivalente em 1997 (2.ª curva):

flynn2.png

Cá temos novamente o aumento médio de 20 pontos de QI! Além disso se utilizarmos o teste de 1932 como padrão, este mostra que não existem crianças "mentalmente deficientes" em 1997, e o número de sobre-dotados aumentou largamente nesse período.

Isto significa que quem acredita como o Álvaro que o QI mede inteligência (ao contrário da citação anterior!) tem também que achar que as pessoas se estão a tornar mais inteligentes em geral. Se ocorreu um aumento de 20 pontos de QI entre a geração de 1932 e os seus potenciais netos, isto significa que os netos são mais inteligentes pela sua própria definição. Isto entra em contraste absoluto com as políticas eugenistas e de repressão racial, evidentemente a coexistência destes grupos não é detrimental ao aumento da inteligência, pelo contrário!

A resposta não pode ser que os testes melhoraram com o tempo. Porque as suposições dos testes foram sempre as mesmas, e pelo padrão actual, a criança que detivesse um QI médio em 1932, aparentaria ter um QI de 80 em 1997. Ou seja, há algo fundamentalmente disfuncional a ocorrer na medição de QI. Talvez, tenha algo a ver com não servir como medição de inteligência. Talvez seja só uma medição relativamente limitada para verificar o sucesso da aprendizagem escolar, o que o torna basicamente um teste de aferição. E aí os factores sócio-económicos voltam, inconvenientemente para os racistas, à baila.

Amanhã veremos o que acontece quando alguém faz uma pergunta, e não tem resposta para ela.

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Publicado às 09:56

Desmistificar testes de QI V: Era uma vez, uma poll no twitter

18.05.20

Este post é sobre uma pequeníssima experiência, em nada estatisticamente válida, mas que ainda assim serve para ilustrar diversos pontos. Simplesmente porque duvido que ter mil ou dez mil participantes alterasse significativamente o resultado da segunda experiência.

Tendo em conta que muitos destes testes e similares incluíram durante vários anos perguntas de conhecimento geral, em que ou se sabe a resposta à priori se calha de acertar em escolha múltipla. Começamos com um mau padrão sobre medição de inteligência que é suposta ser nata. E cultura geral é o oposto disso.

Independentemente da validade da medição de inteligência, que repito é altamente questionável, ainda assim fiz uma pequena experiência no twitter, que correu obscenamente bem: pedi aos meus followers para responderem ao dois exemplos de um testes de QI. Não para medir o seu QI, mas para perceber a lógica e percepção inerente a estes problemas. Comecemos pelo primeiro, igual a muitos que podemos encontrar em múltiplos sites da net, que é o exemplo do post ao qual esta resposta se dirige:

Result1.png

A resposta correcta é 2. Mas a resposta correcta é muito menos relevante que perceber qual é a lógica subjacente: existem duas coisas a ter em conta: geometria das formas e contagem das sub-regiões preenchidas. Se analisarmos diagonalmente vemos que há uma sequência dentro dos quadrados, losangos e circunferências, por exclusão de partes significa que ao existirem 3 quadrados, 3 círculos e só 2 losangos a resposta só pode ser um dos losangos: por isso só as opções 2 e 5 podem ser correctos.

Como todas as formas estão divididas em 4 sub-regiões, e encontram-se com preenchimentos de uma, duas ou três dessas sub-áreas, e sem ocorrer repetição. Como já existe um losangos com uma sub-região preenchida, a reposta é a opção 2. Ainda mais, pode-se seguir lógica ao estilo sudoku: em cada linha e em cada coluna existem uma, duas e três sub-regiões preenchidas. em simultâneo na coluna e linha em falta é necessário uma peça que tenha 2 sub-regiões preenchidas.

A questão é: como é que deduzi que a resposta era a opção 2? Basicamente por conhecimento cultural: ensinaram-me geometria e matemática na escola. Sei o que é uma tabela. E já queimei obscenas horas a fazer puzzles de sudoku. Além disso sei que temos uma obsessão no ocidente por números, tanto é que existe a numerologia, e a sua influência não é recente nem exclusiva ao ocidente, sente-se até na obra de literatura mais influente que temos: a bíblia. E a hegemonia só faz com que este fenómeno se espalhe.

Isto abre a porta a uma série de novas questões: alguém que não tem esse conhecimento ou que observa outros padrões sobre estas figuras consegue resolver o problema? Se uma cultura que considera uma diferenciação entre as cores preto e cinza como algo completamente antitético, serão capazes de olhar para as respostas e ignorar este factor como eu sou? Talvez, talvez não. Vejamos um exemplo arbitrário da minha autoria:

Result2.png

Os resultados foram precisamente em linha com meu objectivo, porque literalmente desenhei o teste para tal: aproveitei os padrões mais reconhecidos por parte de quem partilha a minha educação e cultura, para induzir as pessoas em erro. Por exemplo, as cores existem meramente para induzir em erro, nada têm a ver com o problema, e foram dispostas na forma que foram meramente para aparentarem um padrão, de forma a indicar a exclusão das opções 2 e 3. Mas como veremos as opções 1 e 4 não são correctas.

Então o puzzle é geométrico? Não. Tentar resolver isto com recurso à geometria não resolve o problema. Porque não existe simetria nem lógica subjacente exclusivamente a esta. Isto porque o problema é meramente numerológico. Ou seja um traço vertical = 1, dois traços = 2, três traços = 3, e quatro traços = 4. Contudo para representar 6, decidi meter uma circunferências (que equivale a 5) e um traço que faz mais 1. Isto é para induzir em erro, que estou a seguir o exemplo da numeração romana onde a letra "V" é igual a 5, que aqui seria igual ao circunferências. É um cenário de analogia aparente, mas não efectiva.

Contudo notem como quando representei 4, não coloquei um traço antes da circunferência como "IV" na numeração romana, e esta é a pista! Ou seja a resposta é 9, isto porque é um simples puzzle de soma de linhas e colunas. E como chegamos ao 9? Primeiro pelo sumatório aqui descrito, contudo como é que chegamos realmente à resposta correcta? Simplesmente por exclusão de partes:

  1. As opções 1 e 2 representam ambos 7. Por isso estão erradas.
  2. A opção 4 representa 10 (ou 11, porque não forneci informação suficiente). Por isso também está errada.
  3. A opção 3 é a única que pode ser.

Agora dizem-me, nas olha lá: X na numeração romana é igual a 10. Pois é, mas eu só me apropriei parcialmente dessa numeração, nada me impede de designar que X = 9. De facto, é completamente injusto porque ocultei intencionalmente as regras. Mas os testes genéricos de QI que encontramos na net, como o primeiro que foi exposto aqui também tem regras arbitrárias que não são descritas. Só aparentam ter lógica subjacente porque assumem viés culturais na sua construção, e é por isso que conseguimos interpretar testes de QI ociedentais com relativa facilidade.

Seria possível alguém à minha excepção, deduzir a resposta correcta? Sim. Mas a sua racionalização poderia não ser a correcta, e por isso entra no caso de calhar de acertar e não ser necessariamente um sinal de inteligência. Porque obter a resposta correcta com assumpções erradas, não é a mesma coisa que descobrir a resposta seguindo o trilho de lógica experado.

Amanhã falarei daquela que basicamente é a maior refutação à validade dos testes de QI, que é largamente ignorada pelos racistas que perpetuam este lixo.

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Publicado às 14:11

Desmistificar testes de QI IV: Correlação e causa

17.05.20

Opost de hoje limita-se a exemplificar a falta de lógica inerente à correlação e causa. De facto é uma das falácias mais cometidas por seres humanos, mas não a torna mais gravosa quando o intuito é tentar desenhar políticas racistas baseadas na sua inferência.

O problema inerente ao factor G é que correlação não implica causa. Visitar este site, onde também existe à venda um livro inteiro deste tipo de correlações, mostra-o bem. Deixo aqui um exemplo que esta malta do QI consideraria viável.

ar these things caused1.png

De facto há uma correlação forte entre dinheiro gerado pelas máquinas de vídeo jogos arcade com o número de doutorados em ciência computacional a receberem prémios nos states. Implicar que existe uma causa entre estas duas é ridículo, quando temos em conta que actualmente continuam a existir doutorados nesta área a receberem prémios, e as arcades praticamente encontram-se extintas. Vejamos então um exemplo mais ridículo:

ar these things caused2.png

Talvez os noruegueses metam micro-ímanes na gasolina que mandam para os states só para os matar. Se é para entrarmos em conspirações, mais vale dar-lhe forte e feio.

Mas então como é que funciona a análise estatística que permitiu encontrar o factor G? Ela recorre ao maldito mundo da matemáticas de forma a reduzir um sistema complexo em menos variáveis. Como é que Spearman descobriu G? Não descobriu, ao observar uma correlação derivada da simplificação de análise factorial, arbitrou que essa mesma correlação era G. Ninguém está a negar a existência da tal correlação, mas sim o que ela é ou deixa de ser. Isto para não entrarmos já nos outros milhentos detalhes associados a esta assumpção.

Além da determinação arbitrária de G, esta é inferida da cumulação de dados estatísticos, e não é medida ou conhecida directamente. Efectivamente poderia ter sido designada de outra forma, ou pode representar qualquer outra coisa que não inteligência geral apeasr da insistência dos spearmanitas. Na prática, a imagem apresentada no post de ontem pelo nosso craniologista amadar para mostrar o que é o factor G, é para todos os efeitos a sua máxima representação. Ou seja, evidentemente nada.

Amanhã relatarei os resultados obtidos de uma experiência vagamente científica.

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Publicado às 15:54

Desmistificar testes de QI III: Factor G

16.05.20

Hoje falaremos do factor G, e como esta suposta resposta aos problemas levantados na 1.ª parte, de facto não resolve nada porque não consegue dar resposta às perguntas levantadas.

Supostamente, no meio da falta de coerência e evidência de que estes testes medem inteligência, temos Charles Spearman que tenta vir salvar o dia: este psicólogo inglês, recorreu a análise estatística, da qual é um dos pioneiros, que usou para encontrar o que chamou de "factor G". Como é que o encontrou? Ao analisar os resultados obtidos para grupos (em vez de indivíduos) encontrou uma correlação entre estes resultados. E interpretou esta observação como a existência de um factor comum e atribuiu-lhe a letra G (de inteligência geral). Paro agora a minha explicação, para fornecer a explicação patética dada pelo nosso craniologista amador, à qual também associa uma imagem:

Uma pessoa inteligente não é necessariamente brilhante em todas as àreas cognitivas, por exemplo, uma pessoa pode ser muito boa a matemática mas não conseguir aprender uma língua estrangeira. No entanto uma pessoa inteligente será, em média, mais capaz em abilidades cognitivas do que alguém menos inteligente.

factg.png

O que é isto? Tanto quanto sei é uma flor mágica. O link incluído abaixo remete para este vídeo, extremamente aborrecido e de péssima produção, de um tipo qualquer igualmente obcecado por QI e raças. Se querem ser masoquistas e dedicarem-se a vê-lo, força, mas é extremamente doloroso para algo que podia ter sido explicado, como aqui fiz, num parágrafo. Mas antes que me acusem de ser injusto com o argumento que supostamente aqui é feito, passo a usar figura mais representativa deste factor:

Gfactors.png

O mais interessante é a discrepância entre os 5 factores aqui tidos em conta, e aqueles que já discutimos previamente do dicionário de Priberam na 1.ª parte. A única coisa em comum é a memória e o raciocínio. Todos os restantes são novos. Pode-se interpretar isto como uma discrepância entre as definições comuns e aquelas que existem no meio académico, mas é este o caso? Nem por isso. Tanto que se fosse o caso, a introdução do factor G não seria necessária. Porque ele existe meramente para tentar responder à pergunta do que é medido nos testes de QI. Contudo, na prática, simplesmente introduz mais uma variável no meio do processo, que arbitrariamente passa a ser interpretada como a causa dos resultados de QI. Qual é a evidência para tal? Nenhuma. Qual é a justificação para ela? Uma falácia lógica muito comum.

Resumindo, o factor G aparece com o intuito de explicar o que é medido em testes de QI, mas falha na sua missão de provar que isso é inteligência, ou sequer associado a esta.

Amanhã falarei sobre a falácia lógica que mencionei acima.

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Publicado às 11:33

Desmistificar testes de QI II: A história dos testes de QI

15.05.20

Continuando do post de ontem, vamos então falar de como estes testes apareceram.

Quem inventou o teste de QI? A resposta típica é o psicólogo francês Alfred Binet em 1905. Mas porquê? Isso tem a ver com a introdução da escolaridade obrigatória para crianças até aos 14 anos, aquando Binet e o então aluno Théodore Simon, criaram o teste Binet-Simon, com o intuito de determinar a "idade mental" destes alunos.

A intenção ao contrário do que se possa pensar, era para identificar quem eram os piores alunos de forma ajudá-los a terem melhores resultados lectivos. Binet sublinhou em vão a aplicação qualitativa do seu teste, em oposição à quantitativa. Isto faz mais dele o pai das provas de aferição - correntemente usadas para avaliar escolas, em vez dos alunos singularmente - e não o verdadeiro pai do teste de QI.

Isto porque o padrinho deste órfão foi o eugenicista Henry H. Goddard, que em 1908 traduziu e distribuiu milhares de cópias deste teste nos states. E com isso levou à popularização do teste de QI nos termos que conhecemos ainda hoje. Contudo o teste de QI moderno só apareceria em 1916 ao ser revisitado e reescrito por outro americano, o psicólogo Lewis Terman enquanto trabalhava na Stanford Graduate School of Education. E assim apareceu o teste Stanford-Binet, que ainda hoje é o modelo dos testes de QI.

Qual é a relevância do eugenicismo aqui? Goddard tinha em mente segregar os indivíduos considerados mentalmente fracos em colónias separadas do resto da sociedade. Enquanto Therman considerou que os próprios testes da sua autoria, serviriam principalmente para identificar os indivíduos descritos por Goddard, com o objectivo de parar a sua reprodução: já que também lhes associava o crime, pobreza e baixa produtividade industrial. Ao eliminar estes indivíduos, pensava que eliminaria a sua contribuição genética, e por consequência a sua fraca inteligência como causadora destes problemas. Ou seja, informar política com base em testes de QI. Em certa medida, Binet foi um precursor disso, mas há um mundo de diferença entre tentar ajudar alunos individualmente e tentar cometer genocídio de sub-grupos de uma população*.

Eugenicistas, ainda hoje, querem seleccionar artificialmente a população humana no sentido de tentar ultrapassar um patamar evolutivo. Isto é muito mais em linha com a evolução aristotélica: em que existem escadas delineadas entre os seres mais baixos em comparação aos superiores, do que com a biologia moderna e a teoria da evolução de Charles Darwin. Isto para não contar com todas as descobertas na área que lhe sucessderam, como a genética.

É um problema para Therman que no seu país mesmo sem a aplicação de eugenicismo**, foi possível mitigar nos últimos trinta anos todos estes "males". Como se pode ver para o caso dos crimes em geral entre 1993 e 2018, dados retirados daqui:

FT_19.10.14_CrimeTrends_1.png

Primeiro, a associação entre inteligência e criminalidade não é feita, é assumida, e o mesmo se pode dizer para o resto. Mas não importa, porque como iremos ver na parte 6, até a medição do QI por si só se revela um grande problema. Adiante. Seguem-se os famosos dados da produtividade entre 1948 e 2013:

produtividade.png

Quando temos em conta que em 1973 as principais leis, não todas, de inclinação eugénica e racial se encontravam abolidas, não existe explicação por parte dos craniologistas virtuais para este fenómeno. Isto porque se trata de um fenómeno meramente capitalista, que é largamente (ou até completamente) independente de fenómenos de inteligência. Desde que exista capacidade mental suficiente para perpetuar este sistema, ou mais importante, as suas condições materiais, não há risco de ocorrer um colapso significativo no indicador mencionado acima. Por fim, a pobreza:

Poverty.png

Este é de longe o indicador mais fraco para o meu lado. Isto para não entrarmos nos detalhes de como é medido, porque o tema de conversa não é este. Observa-se um mínimo no ano 2000, ao qual segue-se um período de crise nos states, que foi exacerbada pelo 11 de Setembro, até voltar a despoletar em 2007-2008 numa crise geral do capitalismo. E ainda assim, no total deste período houve genericamente um decréscimo da pobreza.

Mesmo ao assumir que a inteligência tem qualquer coisa a ver com estes indicadores. Ao ver estes resultados é quase, como se a inteligência não é um factor nato que se pode medir em números, mas sim algo largamente (ou até quase exclusivamente) ambiental e social, porque começa a parecer a única explicação plausível para estes dados. De outra forma como se explica que o índice de risco de pobreza flutue tão abruptamente, mas a produtividade não lhe siga o exemplo?

Além disso, como é que sabemos que o teste Stanford-Binet mede inteligência? Não sabemos. Como já referido, se partirmos do princípio que estamos a medir algo, e que esse algo é objectivo - o que é bastante questionável - como é que sabemos que não estamos a medir só uma parte da inteligência? Como é que sabemos que não estamos a entrar numa falácia de composição ao medir uma componente qualquer, ignorando todas as outras, e a tomar uma parte como o todo?

Como os eugenicistas ficaram associados ao seu exponente máximo no nazismo, que ficou com os seus crimes a nu após a segunda guerra mundial, muitos cientistas deixaram de considerar a aplicação de testes de inteligência como viáveis. Isto não melhorou nas décadas seguintes, tanto é que é posto em causa toda a lógica subjacente a estes testes - dou como recomendação de leitura o livro "The Mismeasure of Man" do biólogo Stephen Jay Gould.

Amanhã falaremos sobre o factor G.

 

*Eugenicistas querem selecionar artificialmente a população humana no sentido de tentar ultrapassar um patamar evolutivo. Isto é muito mais em linha com a evolução aristotélica: em que existem escadas delineadas entre os seres mais baixos em comparação aos superiores, do que com a biologia e a teoria da evolução de Charles Darwin, e tudo o que se lhe seguiu.

 

** Políticas eugenicistas foram aplicadas nos estados unidos. Tanto que se justificaram programas de esterilização com testes de QI. E também foi a legislação americana que serviu de base às leis do Terceiro Reich. Contudo o ponto é que esta diferenciação é sempre feita em termos raciais, e apesar de alguma implementação de política eugenicista, esta encontra-se largamente em desuso no último meio século - os efeitos do racismo não desapareceram - mas este período de termínio do eugenicismo também é aquele em que todos os três indicadores mencionados tiveram melhorias significativas. Notem que isto não é suposto acontecer no modelo deles, pelo contrário.

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Publicado às 11:52

Desmistificar testes de QI I: Inteligência

14.05.20

Este post é uma resposta ao artigo QI Explicado por Álvaro aka. caodivino. Mas que penso que servirá em simultâneo como um resumo do estado da ciência nesta matéria em português.

Dividi isto em oito partes que sairão diariamente. Vou começar por ignorar a imagem que ele escolheu para servir de representação do post, porque não passa de um dogwhistle para quem acredita que usar paquímetros para medir crânios é uma ciência. Nunca foi, e nunca teve ponta de credibilidade.

E antes que me acusem já de envenenar o poço quando digo que ele é nazi, é porque é mesmo. Basta ver o próximo artigo a ser aqui analisado sobre, preparem-se, intitulado de Miscigenação! Mas esse será para outra altura.

Como introdução ao tema, ele decide começar com:

QI é um resultado obtido a partir de testes desenvolvidos para avaliar a capacidade cognitiva de uma pessoa. Embora QI não seja sinónimo de inteligência, é a melhor medida que temos para a avaliar.

É interessante começar por aqui sem fornecer qualquer referência de base a estas afirmações. Especialmente à ultima. Por isso, cabe-me a mim fazer todo o trabalho dele: o que é inteligência? Assim de cabeça não sei, é algo que me parece difícil de definir. E por consequência, vamos começar por ver a definição que pode ser encontrada no dicionário português da Priberam:

Priberam.png

A definição de inteligência refere-se a uma generalidade de faculdades, onde se exemplificam 6. Os restantes pontos de 2 a 4, remetem para a definição do ponto 1, enquanto as restantes são relativas a outras aplicações.

Esta generalidade - à qual voltaremos na parte 8 - é um imenso problema quando se tenta medir uma quantidade. Pode parecer que o senso comum responde às perguntas implícitas na citação dele, mas a verdade é que não o faz. Isto porque é possível medir inteligência sem medir todos os seus sub-componentes? Como é que medimos cada um dos seus componentes? É possível quantificar isso? Como é que essa quantificação é feita?

São tudo perguntas com respostas difíceis, senão praticamente impossíveis. Contudo dar o salto imediato de que um teste de QI porque é intencionado para tal função, não significa automaticamente que o faça. Para não entrar nos detalhes da dificuldade de interpretar inteligência. Pensemos na quantidade que cada um de nós se deparou com observações relacionadas com o provérbio:

Quem não sabe é como quem não vê.

Certamente já observamos vários indivíduos que consideramos de inteligência equiparável à nossa, ou até superior, a não conseguirem desenvencilharem-se de uma situação que nos é aparentemente óbvia. Isto significa que não são inteligentes? Em oposição, também já devemos ter observado casos de um completo imbecil a surpreender-nos quando menos esperamos. E quando questionado sobre como conseguiram desenrascar-se, a resposta é uma história banal sobre como outrem os ensinou um detalhe que lhes foi útil na situação. Isto comprovativo de inteligência? Não sei. Sei que é um caso de memória e execução dela, mas isso por si só é inteligência?

Imaginemos alguém com uma super-memória, capaz de se relembrar de todos e quaisquer factoides alguma vez leccionados na disciplina de história. Contudo essa pessoa é incapaz de escrever uma frase por si mesma, só consegue repetir tudo o que já ouviu e leu, até capítulos completos dos livros que já leu. Esta pessoa é inteligente? Terá um QI enorme? Baixo?

A memória já não nos parece muito vital, como era tida mais em conta há uns anos atrás. Quando não havia generalização do acesso à Internet, o conhecimento era retido em livros e em artigos. E era necessário ter acesso directo e físico a esses meios, muitas vezes retingidos a uma biblioteca a vários quilómetros de inconveniência. Mas e agora? Importa assim tanto? Especialmente quando temos em conta a falibilidade das memórias? Será que o que consideramos de inteligência muda com o tempo?

Amanhã saíra a parte 2 sobre como surgiram os testes de QI.

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Publicado às 10:49

Capitalismo queimado

12.05.20

Passaram-se sete anos desde que redigi o post que vou passar a citar, acho que contém alguns dos meus melhores momentos da época, e prevejo que será estranhamente relevante para os tempos que se avizinham. Começando na referência ao Apocalypse Now:

não sei se já reparam, mas quando se anda na rua é impossível não se sentir o cheiro ao capitalismo todo queimado. resultado de uma certa economia que em dia sim definha, e em dia não também definha.

Nem uma década passada, e este sentimento volta a estar no ar. Causas diferentes, mas sintomas muito idênticos. Não acho a diferença de causas como um mero detalhe ignorável, pelo contrário, trata-se de algo muito relevante: os seres humanos as vezes têm uma pandemia a correr por eles, e se o nosso sistema económico não consegue lidar com isto, então há aqui uma anti-naturalidade enorme face à natureza humana.

a ideia dos nossos governantes é que existe uma separação muito bem definida entre o estado social e os rendimentos dos cidadãos. especialmente na posição de que se cortarmos no lado social do estado isto não terá repercussões por entre as pessoas. como já se viu, isto não parece ser o caso, e quando se corta nos serviços do estado fazem-se estragos. uma demonstração disto vem da insistência de que não vão aumentar impostos, parece que descobriram que se afogarem as classes mais baixas em impostos, isto tem um impacto negativo na economia; quem diria tal coisa?

Já não concordo com estas palavras inocentes. Os governantes - tanto o PSD/CDS como no presente o PS - sabem perfeitamente que o rendimento dos cidadãos está intrinsecamente ligado ao que o estado social fornece. Isto não impede no entanto que explorem os incautos, e que os convençam que lhes é benéfico reduzir as funções do estado em troca de maiores rendimentos. Isto falha pelo ponto seguinte:

esquecem que se houver menos suporte às pessoas por parte do estado, o rendimento de muitos portugueses não chega para meter comida na mesa. com um salário médio inferior a 800 euros e aumentos que incluem rendas e diversos impostos. a este mau cenário temos de somar mas cortes potenciais que vêm pelos serviços do estado. como afirmado por passos coelho: os ministérios terão de cortar, pelo menos, 10% dos seus gastos.

Não sei porque argumentei quanto ao salário médio, nem importa. O desfalque entre o salário mínimo e o médio é principalmente alavancado por aqueles que ganham múltiplos desse valor. O salário mínimo é um indicador muito mais realista do comum dos mortais. E mesmo em 2020, e preve-se que mesmo em 2021, não chegará perto de 800 €.

Saltei o parágrafo final das piadas, porque francamente nunca foram boas nem envelheceram bem. O post original: corta tudo o que mexe foi publicado a 9 de Maio de 2013.

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Publicado às 21:46

Tecnocratas e tecnocratas

11.05.20

Já lá vão alguns anos que esta palavra caiu em desuso, contudo era moda há 7 anos atrás, em plena era da política de terra queimada da austeridade e da troika. Tecnocracia no seu sentido restrito remete para um sistema social onde quem detem o poder de decisão são os especialistas de uma dada área. O capitalismo pela sua natureza deturpa este termo como justificação para entregar o máximo de poder de decisão político e social possível, aos indivíduos que detêm o exponente máximo do conhecimento permitido: quem diz compreender o mercado.

O falhanço em compreender o mercado é fascinante só por si, e revela uma limitação imensa das teorias e ideologias que o adoram. Ao considerarem isto uma força independente da vontade humana, que existe para além de nós, e que foi descoberto por acaso pela humanidade como se o santo gral se tratasse, diz-nos mais do que é suposto ser dito. Isto não é de hoje, a mão invisível do Adam Smith, já era ilustrativo do endeusamento do mercado: é feroz, implacável, afecta tudo e todos, mas muito mais do que isso é magnificamente incompreensível.

Quando se rejeita o materialismo por uma divinificação de fenómenos sociais que só existem dentro de certas circunstâncias (aka. isto por si só já é mais materialismo do que deve ser admitido), estes fenómenos passam a ser inexplicados e inexplicáveis. Porque é que os mercados funcionam? Porque sim. Ignoremos as constantes falhas e limitações destes, já que a desculpa é sempre a mesma: se o mercado tivesse mais poder e menos regras sobre si, por magia resolviria o problema. Há que ser crente, porque quando não há fé nos mercados estes colapsam.

Nesse tempo Vítor Gaspar foi a personificação em portugal da tecnocracia, e francamente, um péssimo exemplar disso. Ao apoiar e ser um dos grandes defensores sobre o artigo sobre crescimento em dívida de Rinhart e Rogoff, revelou-se como um falhado na própria área em que deveria ser especialista.

O próprio apelo à tecnocracia económica fica muito mal quando analisamos os deputados e membros do governo da então maioria PSD/CDS, se os metermos a todos no parlamento e retirarmos de lá os que só têm educação em direito, a casa fica praticamente vazia. Isto não é por si um problema, mas passa a sê-lo quando são estes mesmos indivíduos que preenchem os ministérios sem qualquer conhecimento técnico ou científico. Mas o pínaclo do ridículo é que todos os orçamentos de estado que tentaram aprovar eram inconstitucionais.

A inconstitucionalidade dos OE não foi mero acaso, era um ponto fulcral da praxis neo-liberal: criar um consenso nacional de que a constituição era antiquada e limitadora para o governo, de forma a fazer pressão sobre o PS para poderem emendá-la. Algo já feito no passado, mas que nesta versão resultaria a eliminação dos direitos fornecidos por sistemas do estado que, apesar de tudo, ainda lá conseguiram persistir.

Em auto-crítica: já não me considero um tecnocrata, mesmo pela definição mais restrita. Ainda assim, se preencher o teste político do Right Values - feito em reaccção ao Left Values, sou acusado de ser um, como se pode ver na imagem seguinte:

EXvSxANWAAYciQ2.png

As limitações de definição ideológica à direita têm resultados muito interessantes: ditatura ou constituição, aparentemente gosto muito da constituição dos states. Paz ou moralidade, é outra muito boa e reveladora. Teocracia ou separação (laicismo não é coisa que se lhe cheire). Podia tocar na raça e na igualdade, mas vou deixar para outro dia.

Devemos no entanto, enquanto for necessário termos estado, colocar nos cargos executivos quem revela conhecimento nas áreas respectivas? Sim, sem dúvida. E o mesmo se aplica a ouví-los quer estejam nesse cargo ou noutro qualquer. Contudo as áreas científicas não são necessariamente objectivas, e pior do que elas são o que se teoriza a derivar de pressões sociais e políticas. A ciência é de facto o nosso melhor sistema, mas há que atender às suas limitações e viés, e agir em conformidade (ou em inssureição) com isso em mente.

O artigo original chamava-se falsos tecnocratas, publicado originalmente em 28 de Abril de 2013.

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Publicado às 14:13