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500 €, mas em cartão

12.12.22

Num mundo em que a (recém chegada) cadeia de hipermercados Mercadona é aplaudida por dar salários de 1000 €, que afinal são 866 € mensais, porque pagam "em duodécimos", a corrida ao esgoto salarial teve agora a entrada da Sonae com um prémio natalício de 500 €. Nada mau, à partida, pensa o comum mortal, pena que não seja dinheiro mas mero crédito na loja onde são escravizados.

Como obter vales de desconto # 2

Em relação a isto ouve-se como a maior defesa que os "500 € assim são sem impostos". Ora bem, então expliquem-nos lá onde anda a tão amada eficiência privada que não foi capaz de fazer uma coisa tão básica como arranjar um contabilista para desencantar o valor do bónus bruto que resultaria em 500 € líquidos? Muito elusiva esta eficiência sempre que é para dar uma migalha ao trabalhador.

No meio disto falamos da cadeia que não sabe o que são lucros excessivos, o que admitidamente faz sentido no capitalismo desenfreado, e ainda assim justifica não pagar mas meramente dar créditos aos seus trabalhadores. O problema aqui é muito similar ao pagamento de subsídios de alimentação em cartão, mas ainda mais exacerbado:

  1. Retira a preciosa liberdade de escolha liberal: a escolha passa a ser só os produtos disponíveis nos hipermercados Continente, e aos preços que este pratica - longe de ser conhecido como o mais barato;
  2. Obriga a gastar esse crédito, e num determinado prazo, ou seja assegura o lucro à empresa que está a "dar" o suposto "bónus", quase parece um esquema. Quase...

Noto que este tipo de prática é ilegal em certos países, e por boa razão, mas tenho de sublinhar que isto recai num circo muito similar aos 125 € do "Costa-bónus" que recebemos em outubro/novembro. Esse dinheiro em vez de servir para dar poder de compra a seja quem for, ou sequer servir de penso à inflação, é re-injectado em quem tem proveito dela. Os 125 € ainda a serem mais perversos, porque era dinheiro do estado, mas pelo menos esses podiam ser gastos em qualquer lado, ou para os mais felizardos, potencialmente nem o gastar: se bem que ainda estou para ver alguém a quem esta ilusão se aplique, já a ilusão dos 500 € em cartão irá estalar que nem verniz em janeiro quando os salários não actualizarem com a inflação, e houver cortes salariais generalizados.

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Publicado às 19:19


6 comentários

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De Anónimo a 27.12.2022 às 16:17

Já viram o cartoon? O mais esperto quer, no ano de 2023, ser despedido pela tap, ou coisa do género.
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De Manuel da Rocha a 27.12.2022 às 16:24

Um prémio ocasional não paga Segurança social. Só paga IRS, caso seja acima de 1 salário mensal. Podem ser usados 1 vez a cada 12 meses.
A Jerónimo Martins deu o mesmo valor aos funcionários (163 vezes mais a cada membro do conselho directivo). Várias empresas de distribuição fizeram o mesmo. A Sonde usou o esquema que refere. Dá os 500 euros para serem usados nas suas lojas até ao fim de 2023. É algo muito pior que os 125 euros (mais os 50 por cada criança), pois o IVA irá para o estado (com a especulação, as receitas já subiram mais de 67%) e a margem de lucro, para a Sonae.
Mas, faltou-lhe fazer a ligação para esses pagamentos de prémios de desempenho "anti-inflação". Não é nenhuma caridade ou ajuda para combater a inflação. É a forma de eliminarem os lucros da especulação!!!
Olhando para os resultados da Sonae distribuição, até 31 de Outubro, tinham 633 milhões de lucros, pré-impostos. Ora isto é um aumento de 71% em relação a 2021 e de 106% em relação a 2019. Ora pagando os 151 milhões (será o valor de prémios totais) a empresa vê os lucros não subirem mais de 35%, que activava a cobrança dos 33% da taxa extraordinária. Passam por benfeitores e poupam mais de 60 milhões de euros com essa operação, com o pormenor que boa parte do valor vai regressar aos lucros da empresa, em 2023.
(Veja um post que anda a ser partilhado com uma garrafa de vinho Fiteira, que num pequeno supermercado é vendida a 3,19€ (segundo o vendedor com 40 cêntimos de lucro, ilíquido) e no Continente é dado como preço base 13,99€, com desconto fica a 4,49€ (5,99€ nas lojas Bom Dia/Amanhecer) e a Sonae diz "o cliente ainda poderá usar o seu cartão de desconto, para obter vales de combustível e até 15%, para uma próxima compra".)
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De Anónimo a 27.12.2022 às 17:45

Cláudia Azevedo, CEO do grupo Sonae, no ano de 2021, recebeu um total de 1,6 milhões de euros: 505.600 euros a título de remuneração fixa e dois prémios de 551.000 euros cada um. No ano de 2020, segundo a Agência Lusa, "a remuneração fixa foi de 493.800 euros e os prémios de 372.700 euros".
Contas feitas, a remuneração da CEO subiu de 1.239.200 euros em 2020 para 1.607.600 euros em 2021, "sendo o salário da gestora distribuído por três partes, incluindo dois prémios, segundo um relatório" a que a Agência Lusa teve acesso. Comunicado lançado pelo grupo a 17 de março deste ano destacava que a Sonae tinha aumentado o volume de negócios em 5% para um valor recorde superior a 7 mil milhões de euros, e que o investimento ascendeu a 474 milhões de euros, dos quais 195 milhões de euros em aquisições.
Quanto aos 450 mil euros que o Estado terá atribuído ao grupo Sonae, a verdade é que, de acordo com uma análise do "Jornal de Negócios" à lista de subvenções que foi publicada pela Inspeção-Geral de Finanças (IGF), o apoio máximo de 84,5 euros por trabalhador fez com que o Modelo Continente (principal empresa detida pela Sonae) tivesse direito a uma subvenção de 355,7 mil euros. Ainda assim, houve mais dinheiro movimentado por se tratar de um grupo: 92,4 mil euros foram pagos ao Continente Hipermercados, um valor que, somado ao anterior, resulta num total de 448 mil euros.

É caso para dizer; metam o cartão no c#...
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De s o s a 27.12.2022 às 22:55

áparte a crise , e os prognosticos, numa coisa está imediatamente certo : "esquema" e "circo"
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De Daniel Mota a 28.12.2022 às 10:10

A minha entidade patronal deu-me um bacalhau que mais parece um carapau grande... quer trocar?
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De Anónimo a 28.12.2022 às 11:36

500 € era o que deviam ter dado a essa gaja feiosa que anda aí nas bocas do mundo. Mas em pastilhas.

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