Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A imparável inflação

23.11.22

Na ausência de controlos de preços, a inflação não irá parar. Poderá sofrer abrandamentos, mas continuará a existir em peso. Tanto que para compensar os efeitos das inflações nos dois digitos, não basta um abrandamento para compensar o roubo salarial, teríamos de observar reduções de preços dignos de descontos durante meses. Obviamente que numa crise inflacionária o seu efeito é mais sentido, porque inicia-se uma corrida ao lucro fácil.

A equação que explica este mecanismo é muito simples. De uma forma geral se a inflação média se encontra, por exemplo, nos 10 %, basta para o capitalista que define os seus preços, aumentá-los acima desse valor, por exemplo 12 %. Isso significa que basicamente acabou de meter esses 2 % ao bolso. Isto sem produzir qualquer mais valia, ou geração de riqueza, simplesmente por um mecanismo de roubo ao cliente. A generalização social deste fenómeno é o que está a criar a inflação corrente.

Dado que a inflação média é diferente da inflação de cada sector ou a inflação particular, observa-se variações de preço em função de cada caso e sector. Se os preços da matéria-prima para o capitalista A aumentaram 2 %, e ele aumenta os preços para 3 %, o capitalista B que lhe compra a matéria-prima agora acrescida a 3 %, venderá a sua por um aumento na mesma ordem. Mesmo na ausência de ganância de um capitalista ou outro no meio desta corrente, basta um para aumentar os custos sucessivos de todos os outros. Obviamente, na situação em que nos encontramos não está a ser só um elo na cadeia a abusar.

Inflation-Chart-V2-social-media-3847111048.png

Um dos truques do sistema capitalista para iludir os trabalhadores e os nossos salários estanques durante os últimos 40 anos foi a inflação geralmente baixa. Isto aliado a bens electrónicos baratos e produzidos na China, permitiu obfuscar o roubo que foi feito a cada hora de trabalho com o aumento desenfreado da produtividade sob modelos de gestão mais opressivos. Contudo o castelo de cartas desaba sobre a ganância generalizada, e necessária do capitalismo: na ausência de crescimento cada vez maior, a empresa está a falhar. Ignoremos o irracional e impossibilidade desta lógica, especialmente se as massas de consumidores capitalistas, tem cada vez menos recursos para o tal consumismo, devorados por constantes novos serviços em formas de rendas.

A derradeira consequência para nós todos é que o valor numerário dos nossos salários permanece largamente intacto, enquanto que perdemos poder de compra, ou seja, estamos a ser roubados. Recebemos efectivamente menos a cada dia que passa. E atirar um cheque anual aos trabalhadores, ou um mensal ou qualquer medida frouxa desse género não resolve o problema, por uma razão muito simples: o valor monetário do cheque vai direito para o bolso dos mesmos capitalistas que aumentam os nossos preços, sejam senhorios ou os donos dos conglomerados que enchem os inescpáveis supermercados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Publicado às 11:26


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.11.2022 às 16:26

O amigo está a menosprezar duas outras realidades:
1 - Os governos ocidentais andam há 15 anos a comprar as crises e as opiniões públicas a meter dinheiro no mercado ininterruptamente, com as rotativas a criar uma massa monetária que produz dívida e desvalorização de moeda e com isto empobrecendo a classe média na falsa ilusão, de curta duração, de disponiblidade do produto "dinheiro";
2 - Em particular, nos ultimos anos, assistimos a um ataque em dois vectores sobre a oferta
2a - Os "confinamentos" que bloquearam a economia as cadeias de distribuição que ainda não recuperaram, e fortes agravamentos de disponibilidades, de custos materiais e de transporte;
2b - Um ataque ao fornecimento energético do planeta para promover as novas energias "verdes" em que não só agravaram os custos das energias tradicionais face às "verdes" para as tornar mais sexy por não serem económicamente competitivas, limitaram, encareceram ou baniram o suporte legal e financeiro a novas explorações tradicionais. e agora tentam colocar fora do mercado um país (Russia) que é um dos produtores Top5/Top10 mundiais de quase todas as matérias primas que a sociedade mundial necessita desesperamente.
Estes factos são fácilmente verificáveis. E não sei que rotativas o BCE e o Fed possuem, mas de certeza não imprimem cereais nem energia nem nada mais que... papel.
Perguntem-se porque fazem isto (porque eles sabem), e investiguem.
Não só nos roubam o pouco que temos, como o nosso futuro, e de nossos filhos. Mansamente.
Imagem de perfil

De Cãomunista a 23.11.2022 às 18:04

1. Discordo só aí com a terminologia de "classe média", que não é a classe do comum mortal, mas sim a classe entre os trabalhadores e os capitalistas, aka. os gestores e afins.

2a. Esta coisa dos bloqueios de distribuição ainda não terem recuperado acho curioso. O que andam a fazer então as empresas com as suas cadeias de distribuição? Literalmente não temos pessoas (da classe média) supostamente cujo trabalho é assegurar as cadeias de distribuição? O que andam a fazer?

2b. Se dizemos que as energias verdes não são economicamente competitivas, e por isso eram agravadas no custo, como ficam agora que as matérias petrolíferas estão encarecidas pelo mercado? Não passaram a ser mais competitivas? E estou aqui a ignorar, que a sua utilização tem consequências gravíssimas que agora estamos a colher, e que não pode ser feita a longo prazo. Isto parece indicar que a carburar recursos energéticos como estamos, a sociedade irá colapsar com um belo estrondo mais antes do que tarde.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.11.2022 às 18:57

Quanto às cadeias de distribuição, houve vários fenómenos:
- Em aproveitamento aos confinamentos, e como noutros sectores, existiu algum "downsizing" de efectivos (i.e. despedimentos e abandonos);
- Composto com aumentos brutais dos custos de transporte (p.ex. contentores) que não regrediram a valores anteriores;
- Geraram-se assimetrias oferta/procura que boa medida ainda persistem (p.ex. quando as industrias europeias fechadas como a automóvel deixaram de comprar materiais e chips aos chineses - entre outros - estes fornecedores encontraram outros destinos para tais produtos - ofertas que não foram capazmente recuperadas.
Nunca foi - como não é - a falta de disponibilidade de trabalhadores.
Quanto às energias verdes basta ver que históricamente o petróleo já esteve mais caro do que está agora, sem que gasolina e gasóleo tomassem os valores actuais. A economia das taxas do carbono é um esquema gigante de transferência de riqueza em que as taxas e agravamentos são transferidos ao consumidor - i.e. nós. Para benefício das energéticas. mas sobretudo para benefício do Estado.
Não esqueçamos que o aumento do preço do petróleo tem um efeito de cadeia, é necessário para todo o processo económico, não só o combustível de automóveis, navios, centrais eléctricas que alimentam a industria, mas também na base de tantos outros produtos (p.ex. plásticos, fabrico de semicondutores, etc etc).
O panorama não é de todo animador e estamos a assistir a um esforço para criar uma sociedade de vigilância e redução de liberdades a pretextos diversos, para conter os indios (nós) não vão eles protestar ou revoltar-se quando as coisas piorarem.
Fala-se de criptomoedas emitidas por bancos centrais mas ninguém parece pensar que essa é uma forma de qualquer governo decretar suspensão, confisco ou congelamento de >todas< as actividades que envolvam dinheiro de qualquer individuo por razões políticas (já o fizeram no Canadá) - ou por simplesmente ter opinião ou discordar - desde que criado o quadro legal. Mais: é um instrumento extraordinário para censurar o consumo se associado a créditos de carbono ("quer ir de férias ao Algarve ? Lamentamos não tem créditos suficientes, não pode pagar - quer comprar dois quilos de bife ? já excedeu os seus créditos de carbono"). O pagamento é simplesmente recusável.
Claro está que quem está no topo da piràmide e controla as "torneiras" não sofrerá estas "inconveniências".
Daí a guerra ao dinheiro circulado "para combater lavagem de dinheiro".
Esta é a minha opinião e ainda não vi nada que me convença do contrário.

Comentar