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Políticas de Copy-Paste

08.01.22

Um aspecto universal partilhado por todos os partidos de direita em Portugal é a ideia de que se podem copiar leis, impostos, taxas &c. de outros países, e simplesmente aplicá-los cá para se obterem os resultados económicos vistos nessas regiões alheias sob estados igualmente alheios a nós.

Esta noção é fundamentalmente errada. Porquê? Porque ignora as condições históricas e materiais que permitiram a esses países que não ocorreram em Portugal. Fazem-se comparações sem nexo onde normalmente citam outros países europeus, dentro ou fora da UE, como se tudo fosse igual quando não é o caso. E tenho de relembrar a chatice que é o materialismo, que supostamente também devia tocar aos ditos liberais, em oposição um idealismo absoluto dos manuais de economia e folhas de Excel.

Qual é a principal diferença? Portugal nunca participou abertamente na "época dourada do capitalismo" ou no "liberalismo embebido". Isto refere-se ao periodo da reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial, sob políticas liberais keynesianas, financiada por empréstimos de capital yankee. Algo homólogo observou-se no dito bloco de leste, onde os diversos países sob partidos comunistas aplicaram variações locais de modelos inspirados pela URSS: caracterizada não só pela expansão do estado como garante da educação e saúde, mas também pela criação de uma imensa expansão industrial inédita em muitos destes países.

Durante este periodo formaram-se ou expandiram-se largamente os estados sociais. Além disso os investimentos do estado em infraestruturas, permitiram um largo desenvolvimento produtivo e industrial que cimentou nestes trabalhadores proletários o alargamento dos sindicatos. Algo forçado pelo contraste comunista de leste, que ao dar o garante de empregos, saúde, habitação, educação, &c. necessitou de uma reação por parte das nações liberais que sem nunca rejeitarem o capitalismo, aceitavam o consenso geral que "a besta tinha de ser domada". O que se traduziu numa relaxação da taxa de exploração e algumas melhorias das condições materiais mitigando o impacto do capitalismo, claro, sem alguma vez solucionar os seus problemas.

Isto perdurou até ao final da década de 1970s, onde o mercado eventualmente estagna com a saturação que veio com o fim da reconstrução, e o retorno no investimento deixou de satisfazer a maioria da burguesia. A resposta veio com o neo-liberalismo: trickle down, privatizações, PPP, desregulação, redução de impostos, marketização, utilizador-pagador, subsídios do estado em troca de comprovativos de necessidade, &c.

Enquanto o Estado Novo criou condições para existir indústria nacional, esta era relativamente básica, e tinha por base a transformação simples das matérias-primas extraídas a baixo custo das colónias. Por consquência os produtos portugueses eram também eles baratos, dada a transformação relativamente simples e alta taxa de exploração. Esta não é só referente aos oficialmente não-escravos nas colónias, como também aos trabalhadores em Portugal que eram pagos a salários baixos.

Quando se matou o PREC em 1975, a democracia liberal que se implementou no ano seguinte nunca existiu no contexto da "época dourada do capitalismo". Tanto que foi atirada (pela natureza deste regime) quase de imediato contra uma indústria local que não tinha acesso à matéria-prima com que foi edificada, e à qual era dependente, bem como o resto da herança do Estado Novo que (entre outras coisas) dexou-lhe a dívida da sua guerra colonial.

O neo-liberalismo nem tardou a chegar, a começar a ser implementado abertamente em 1980, quando ainda nem as estruturas do estado social prometidas na constituição se haviam materializado. O SNS eventualmente foi feito, mas nunca ao ponto a que poderia ter chegado, e muitos outros direitos ficaram no papel como a habitação, que ainda nessa década foram de imedito e permanentemente subvertidos por revisões constitucionais com o "tendencialmente gratuíto", como moeda de troca para a entrada na UE.

Em suma, Portugal ao não ter tido o investimento keynesiano (ou qualquer coisa remotamente similar) que outros países europeus tiveram, nunca teve o desenvolvimento produtivo e industrial visto lá fora. Por exemplo, já na década de 1970 quase todos esses países tinham indústrias automóveis significativas, que de alguma forma (nem que sejam só as marcas) perduram até hoje. Portugal só teve uma marca de motas de nota. Fora disso algumas marcas pequenas que eram tecnologicamente atrasadas ou dependiam de componentes fundamentais que vinham de marcas estrangeiras. Algumas destas foram fundadas à volta da transição de regime, o que teve por consquêcia serem devoradas na competição neo-liberal face ao capital estrangeiro "mais competitivo".

Sem este desenvolvimento como é que é possível copiar seja o que for de outros países que o tiveram para aqui? Simplesmente não é possível. Ainda mais quando as propostas liberalóides não irão incentivar este tipo de desenvolvimento, nem alterarão o turismo como motor da economia, não vá criarem-se demasiados proletários por cá! Nunca se esqueçam do desenvolvimento industrial que os países de leste tiveram antes de se pasmarem com os seus resultados em marcadores económicos liberais.

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Publicado às 10:20


5 comentários

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De s o s a 08.01.2022 às 21:06

basicamente diz ( e detalha ) que a industrializaçao, o crescimento, nao cai do ceú, e portugal viveu consigo mesmo e por si só. Os outros países, como os envolvidos na guerra tiveram necessaria e efetivamente outra dinamica.

Portanto estamos condenados, mais que no marasmo ou impasse, nao sairemos da cepa torta, do pelotao. Mas tambem nao é realista pensar que poderiamos pular , tipo estalar de dedos, para a linha da frente.
E se nos outros paises existem convulsoes e crescentes incertezas, a ver vamos ate quando por cá cabemos todos no mesmo barco.
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De Cãomunista a 09.01.2022 às 10:51

não é bem isso. portugal não viveu consigo mesmo, exportava imenso durante o estado novo. aquele fascínio dos economistas com a balança comercial da altura é factual. só que nunca se contextualiza o porquê dela ter existido

e não, não estamos condenados. isso é o que querem que acreditemos, é a velha máxima thatcheriana (e neo-liberal) do "não há alternativa". há alternativa, e provavelmente implica fazê-lo com recurso ao estado, porque admitidamente não temos mais nada que o faça a tempo, e sim, também admito que isto no contexto corrente parece extremismo impossível. mas continuar o que tem sido feito evidentemente não tem funcionado, por isso é mesmo necessário pensar fora da caixa do politicamente aceitável
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De s o s a 09.01.2022 às 12:10

nem vou pedir para definir "exportavamos imenso", ainda por cima parece defender-se antecipadamente , para tanto falando em balança comercial. Como quer que fosse, com imensa ou exportaçoezitas ( e decerto conhece a realidade p.e dos tratados historicos entre a ida do vinho e a vinda dos texteis- lanificios ) , o pais era pobre, o mais pobre. Já agora, apesar de Africa. E nao vale responder, ou repetir, que a africa é que nos tolheu, embora já tenha referido que nos valiamos das materia prima que traziamos de lá.

Todos sabemos, voce sabe, nao há outro berço, maior segurança que o atual : a inserçao na Uniao. E só neste espaço podemos nao afundar, porque eles cuidarao.
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De Cãomunista a 09.01.2022 às 15:31

e falharia a definir. já que o imenso é em linha do que dizem, não o que é necessariamente o caso. provavelmente tanto em valor monetário (equivalente) como em quantidade provavelmente exporta-se mais no presente. só que depois importa-se proporcionalmente mais. e as colónias não nos seguraram, pelo contrário, foram exploradas pelo estado soberano delas. as condições em que isso aconteceu - o que aponto é que "desmamar" das colónias é melhor o quão mais cedo se faz, já que evita a exploração directa delas e a dependência das mesmas (nos dois sentidos até)

o problema da UE, é que obriga a competir no seu mercado único. e portugal não consegue competir devido ao seu passado sem desenvolvimento industrial sério (até a revolução industrial chegou cá tarde e mal). quanto a afundar na UE, continua-se na cauda, e sempre lá se ficará sem alterar a política de base
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De s o s a 09.01.2022 às 20:35

sobre a cauda....
nao é uma questao de politica, nenhuma politica nos retira da cauda da Uniao. Politica, a boa, é conseguir sempre o equilibrio e alimentar satisfatoriamente o país.
Por tudo o que escreveu, e tambem porque os mais paises nao dormem, estamos onde estamos, e até é um milagre. Claro que endividados, mas isso é a moda, o mundo esta endividado, desde logo os maiores e poderosos paises.

A Noruega, que nao é da Uniao, recebe e as suas empresas dinheiro da Uniao (sim, a Noruega tambem comparticipa em programas da Uniao)... e sempre houve cooperaçao no mundo e continuará.
E o mundo é o que foi e é. E vai continuar a ser. Estou a dizer que as politicas possiveis sao as que operacionalizam o capital...maldito. Mas é o que faz esta coisa andar vestida.

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