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Defesa cultural de direita

29.11.22

À medida que o inverno se aproxima, como uma profecia ignorada d'uma guerra dos cornos, parece que só os ucranianos estão cientes da situação em que nos encontramos. Enquanto o resto da Europa dorme sediada numa falsa segurança imperial, o povo do estado mais pobre da UE acautela-se com o pouco que tem para fazer frente a um inverno agreste.

Este novembro tivemos um bonito presente envenenado divino, onde a chuva intensa fez estragos, mas aliviou imenso a descida de temperaturas, que só agora começa a mostrar o seu peso nos termómetros.

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Enquanto isto, podemos assistir à defesa cultural esse grande pilar oco do populismo da direita, com Viktor Orbán a ser o maior exemplar. Anunciando o fecho de locais culturais por causa dos custos invernais.

Isto é ainda mais curioso quando Orbán é um infame putinista, ou melhor, um apreciador refinado de Putin. Tendo feito inúmeras aproximações recentes, quase sempre comunicadas até nós no sentido de que isto compensaria-lhe nesta situação.

Observamos uma situação em que a Hungria, supostamente teria mais e melhor acesso ao precioso gás russo, mas... Deverás um "mas" curioso. Isto só pode significar uma de três coisas:

  1. A sua posição não é tão próxima como nos dizem;
  2. A Hungria não é uma prioridade, talvez por ter bolsos pouco fundos face à concorrência;
  3. O governo húngaro tem acesso e gás, mas explora a situação em benefício da burguesia local.

Parece-me que os dois primeiros pontos podem ser rejeitados porque: primeiro, Orbán é próximo de Putin, e permite e usa capital russo em benefício próprio e de quem representa. Segundo, mesmo a alimentar a China e países circundantes, a Rússia tem infra-estrutura e gás mais que suficiente para também fornecer a pequena Hungria.

Em termos de oportunismo, a tese parece elementar: é a mesma conversa da dívida em Portugal, há que cortar para conter despesa. A despesa é contida por isto? Nunca é. Mas os serviços são prontamente cortados. Neste caso o fecho destas actividades culturais, permite cimentar ainda mais o controlo do capital burguês sobre as massas.

Isto faz-se de várias formas, desde da selecção dos meios de entretenimento estrangeiros que são disseminados pelos meios de comunicação privados, à censura passiva de eventos culturais que não partam directamente dos privados. Por exemplo, o cancelamento de entretenimento dos teatros locais a serem progressivamente substituídos por eventos pós-laborais sociais no local de trabalho, onde a alçada do patronato é forte e escolhe o ambiente e o que é apresentado.

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Publicado às 11:16

A insurreição do capitólio

16.11.22

A 6 de Janeiro de 2021 assistimos a um suposto golpe de estado com a invasão do Capitólio americano por cerca de 800 defensores de Donald Trump. Estaríamos então a assistir a uma tentativa de imposição de um regime fascista nos Estados Unidos da América, ou assim nos querem fazer crer.

Temos de admitir que entre os ditos insurgentes, estavam grupos relativamente organizados da extrema-direita cujo objectivo é, de facto, a instauração de fascismo nos States. E estes tinham um plano, e esse plano era parar a contagem final oficial do colégio eleitoral que estaria a decorrer no Capitólio nesse dia (que continuaria até ao dia seguinte), e forçar a mão do vice-presidente Michael Pence em dar a vitória ao seu presidente.

File:2021 storming of the United States Capitol DSC09254-2 (50820534063) (retouched).jpg

A legalidade destes objectivos é irrelevante, por duas razões:

  1. Os fascistas só querem saber da legalidade do regime liberal que lhes antecede e lhes cede o poder, em termos de oportunismo para o distorcerem a seu favor (algo que é bem mais fácil do que pode parecer);
  2. Ao ter sido bem sucedido na sua essência não alteraria o regime ianque, mas sim subverteria um dos seus processos, algo que é tudo menos inédito.

E por estas duas razões a dita insurreição não foi um golpe fascista falhado. Foi sim uma palhaçada, com a devida gravidade, mas que foi exagerada e explorada pelo regime em benefício próprio (tal como acontecera previamente com os ataques do 11 de Setembro).

A conquista do edifício

O Capitólio é a sede do poder legislativo ianque. Isso significa, que tomado fora dos dois dias acima mencionados, isso não pararia o aparato do estado americano. Tanto que não o fez. E além disso, o estado federal e estadual americano é tudo menos fácil de parar sem um sério movimento de massas, e que me parece só ser possível após uma guerra civil.

Os grupos que invadiram o local, dos quais 800 indivíduos lá entraram, pertenciam a diferentes facções unidas em torno de uma personalidade. Uma personalidade com ideais ur-fascistas, mas cujos objectivos políticos reiais não são reconhecidos pelos participantes, e que na prática não teria os meios de realizar os sonhos molhados dos manifestantes.

Aerial view from above the U.S. Capitol, looking west along the ...

A própria organização dos (e em) grupos díspares era tudo menos sólida. Tanto que a vasta maioria dos 800 que invadiram o Capitólio não sabia realmente o que estava a fazer, ou como conseguir realizar as suas ambições mesmo que soubesse qual era o plano. Simplesmente estarem instigados por Trump, via Twitter (a pior rede social para se dar planos explícitos), não se traduz numa execução com nexo.

Ausência de condições

O fascismo surge como reacção à organização das massas trabalhadoras, quando estas no meio de uma crise do capitalismo genuinamente ameaçam a existência da hegemonia burguesa de um dado estado-nação. Neste caso, como não existe uma sindicalização geral, ou até um movimento como o Occupy Wall Street, ou a ascensão de Bernie Sanders como vencedor da eleição presidencial, a burguesia americana não tinha razões (ou sequer a percepção de razões) dignas de registo. Logo, as condições da ascenção fascista não se manifestaram.

Union membership rate in U.S. held at record low of 10.7% in 2017 ...

Nesta ausência de apoio da burguesia a insurreição - que por si só, repito, nunca conseguiria vergar o estado ianque - condenou-a à nascença. Mesmo que esta fosse muito maior e apoiada por um único grupo organizado, por exemplo, pelos militantes do Partido Republicano. A prova da falta de apoio da classe dominante, foi a subsequente e imediata rejeição e retirada do tempo de antena de Trump das redes sociais.

O caso brasileiro

Após a derrota de Bolsonaro no Brasil, muitos apregoaram que algo similar se poderia organizar por lá. A mesma falta de ausência de medo da classe dominante foi observada, e além disso, já o império americano havia avisado que não iria deixar tal evento chegar a bom-porto. Isto é particularmente relevante, já que praticamente todas as contra-revoluções fascistas na américa latina foram, ou provadas directamente pelos ianques, ou então, endossadas por eles.

Bolsonarista agarrado em cabine de caminhão

O que vimos no Brasil foi um exemplo ainda mais patético da palhaçada. Alguns infelizes iludidos decidiram manifestar-se desorganizadamente e sem qualquer resultado além de um vídeo viral de um idiota no pára-brisas de um camião. No fim, Bolsonaro pessoalmente confirma esta tese, baixando a cabeça e admitindo a derrota. Este voltará para as sombras, já que ur-fascismo aparentemente não é crime, e o Brasil aguardará pelo próximo proto-fascista ou pela personificação real do fascismo.

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Publicado às 10:36

Sobre o ur-fascismo

15.11.22

Muita tinta correu recentemente, especialmente tinta virtual, sobre o artigo Ur-Fascismo de Umberto Eco, escrito em 1995. Citado quase sempre como a definição concisa e derradeira do fascismo e as suas características. Ao ponto de ter sido sumarizado e partilhado na forma de meme.

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O que falta em interpretar é o próprio título "ur-fascismo". O que significa o prefixo "-ur"? Se ele faz parte do texto, há-de ter alguma relevância, certo? Essencialmente significa antigo, originário ou na linguagem corrente "proto". O que Umberto Eco está a descrever na realidade não é o fascismo na sua forma final, mas sim as característicais originais dele no proto-fascismo.

O que temos de ter em conta é que o proto-fascismo não aparece só por parte de partidos ur-fascistas, mas também por aqueles que podem dizer-se em oposição a eles. Muitos destes pontos apontados por Eco estão presentes há decadas como parte da agenda dos partidos do poder nas democracias liberais, especialmente pelo bloco mais assumidamente à direita dos bipartidos regentes.

Não deixa de ser claro que a ascensão dos novos partidos fascistas - que são oficialmente só (e ainda na prática também só) ur-fascistas - advém de uma base de partilha, interiorização e normalização desses pontos fascistas acolhidos no leito da ideologia do regime. Logo não é de admirar que muitos ur-fascistas ou tomam o poder das estruturas do bipartido da direita (como no império dos states) ou começam a sua carreira num desses partidos (como em Portugal ou no Brasil).

O fascismo também se normaliza pelo facto de muitos destes partidos e figuras ascenderem ao poder, e não instaurarem fascismo por si mesmos. Fazendo-os parecerem menos perigosos do que realmente são, por ainda ser possível utilizar as eleições liberais para os retirar do poder.

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Aquilo que pode parecer uma contradição não o é. Tenho de reiterar: não é possível utilizar eleições para retirar fascistas do poder. Então como é que tantos proto-fascistas saem do poder, e geralmente de forma pacífica? Porque não instauraram fascismo, pelo menos, ainda. E não o fizeram por uma simples razão: as burguesias locais, as principais financiadoras desses movimentos, ainda não têm medo das massas trabalhadoras. E não têm medo porque estas ainda não estão organizadas, mas isso irá mudar com o aperto das condições laborais impostas pelo neo-liberalismo cada vez mais opressivo e desenfreado. E o dia está para breve em que teremos de escolher claramente entre socialismo ou barbarismo.

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Publicado às 13:10