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Resistência & Insurreição
Desde da invasão da Ucrânia pela Federação Russa que seria de esperar que o sector energético iria abusar da situação em benifício próprio. Exacerbado pela União Europeia rapidamente a descascar todo o seu verniz verde, e exibindo a sua absoluta dependência energética no gás russo, enquanto vemos ao longe notícias sobre lucros obscenos do grande capital.

No meio disto tudo começa a ouvir-se dos corredores da UE, e daí para os meios de comunicação, a criação de impostos sobre lucros excessivos ou windfall taxes. Algo de facto estranho, dado que a ideologia e política oficial do regime capitalista é que crescimento económico é sempre bom. Pelos vistos, há receio que as massas comessem a ter ideias diferentes. Especialmente aquelas que se arriscam a sobreviver o congelamento deste inverno.
A dependência na Rússia como fornecedor natural da União Europeia assenta essencialmente na ausência crónica de infra-estrutura para o abastecimento dos consumos europeus. Quando a Alemanha decidiu criar pressão para explorar no curto-prazo os descobertos poços de petróleo em Khrakiv, fê-lo com o intúito de reduzir a dependência do gás russo, mas com a hipocrisia de continuar com acesso a ele. O objectivo era simples: baixar os seus custos e, eventualmente usar a França e as suas pseudo-colónias africanas para eventualmente passarem a ser o principal fornecedor europeu. Isto é uma das razões para a origem da guerra aberta na Ucrânia.

Mesmo com os EUA a venderem o seu excedente de gás à UE por via marítima, isso não é suficiente para sustentar os consumos europeus. Todo o pânico generalizado quanto à "Rússia fechar o gás", tem justificação, porque na ausência desse gás, o racionamento de gás será feito em duas vias:
Dadas estas condições, é óbvio que ao descendear-se uma crise inflacionária, não existe qualquer motivo para qualquer capitalista ainda em negócio para não exacerbar a situação. Cobrando preços acima dos preços inflacionados que paga. E entre os reis desta prática, que depois culpam o preço dos combustíveis, estão as grandes cadeias de supermercados e respectivos conglomerados associados.
Quando a Sonae diz que não reconhece o conceito de lucro excessivo, tem toda a razão. Para um capitalista lucro é bom. Ganância é a justificação de tudo. Como é possível que "fazer dinheiro", literalmente a função da Sonae possa ser algo mau? Não pode. Muito menos alguma vez uma empresa destas poderia ser remotamente apanhada a dizer outra coisa.

A questão que se coloca não é a taxação destes lucros. Acho muito bem que se taxem. Tanto acho que se se taxam muito pouco os lucros, face, por exemplo, aos rendimentos do trabalho e ao consumo que este faz. O verdadeiro crime desta ideia é a tardeza e incapacidade de se fazer algo retroactivamente, porque nada indica que quando finalmente aplicado o tal windfall tax ainda justifique a sua existência.
Além disso, esta taxação resultará em quê em concrecto? Será reaplicado em medidas distributivas que têm real impacto? Ou será outra meia-medida, que resultará numa acentuação da inflação enquanto os capitalistas tentam castigar o estado, através do povo, enquanto amassa lucros e vai pagando taxinhas? Porque qualquer medida realmente estrutural, seria digna de realmente requilibrar a dinâmica enviesada contra os trabalhadores, como por exemplo assegurar um investimento digno e lógico no SNS. Contudo tudo indica que isto será usado para dar margem na mitigação de défices enquanto se baixarão outros impostos sobre o capital pela calada.
Na ausência de controlos de preços, a inflação não irá parar. Poderá sofrer abrandamentos, mas continuará a existir em peso. Tanto que para compensar os efeitos das inflações nos dois digitos, não basta um abrandamento para compensar o roubo salarial, teríamos de observar reduções de preços dignos de descontos durante meses. Obviamente que numa crise inflacionária o seu efeito é mais sentido, porque inicia-se uma corrida ao lucro fácil.
A equação que explica este mecanismo é muito simples. De uma forma geral se a inflação média se encontra, por exemplo, nos 10 %, basta para o capitalista que define os seus preços, aumentá-los acima desse valor, por exemplo 12 %. Isso significa que basicamente acabou de meter esses 2 % ao bolso. Isto sem produzir qualquer mais valia, ou geração de riqueza, simplesmente por um mecanismo de roubo ao cliente. A generalização social deste fenómeno é o que está a criar a inflação corrente.
Dado que a inflação média é diferente da inflação de cada sector ou a inflação particular, observa-se variações de preço em função de cada caso e sector. Se os preços da matéria-prima para o capitalista A aumentaram 2 %, e ele aumenta os preços para 3 %, o capitalista B que lhe compra a matéria-prima agora acrescida a 3 %, venderá a sua por um aumento na mesma ordem. Mesmo na ausência de ganância de um capitalista ou outro no meio desta corrente, basta um para aumentar os custos sucessivos de todos os outros. Obviamente, na situação em que nos encontramos não está a ser só um elo na cadeia a abusar.

Um dos truques do sistema capitalista para iludir os trabalhadores e os nossos salários estanques durante os últimos 40 anos foi a inflação geralmente baixa. Isto aliado a bens electrónicos baratos e produzidos na China, permitiu obfuscar o roubo que foi feito a cada hora de trabalho com o aumento desenfreado da produtividade sob modelos de gestão mais opressivos. Contudo o castelo de cartas desaba sobre a ganância generalizada, e necessária do capitalismo: na ausência de crescimento cada vez maior, a empresa está a falhar. Ignoremos o irracional e impossibilidade desta lógica, especialmente se as massas de consumidores capitalistas, tem cada vez menos recursos para o tal consumismo, devorados por constantes novos serviços em formas de rendas.
A derradeira consequência para nós todos é que o valor numerário dos nossos salários permanece largamente intacto, enquanto que perdemos poder de compra, ou seja, estamos a ser roubados. Recebemos efectivamente menos a cada dia que passa. E atirar um cheque anual aos trabalhadores, ou um mensal ou qualquer medida frouxa desse género não resolve o problema, por uma razão muito simples: o valor monetário do cheque vai direito para o bolso dos mesmos capitalistas que aumentam os nossos preços, sejam senhorios ou os donos dos conglomerados que enchem os inescpáveis supermercados.