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A propaganda capitalista da pegada de carbono

23.01.23

A pegada de carbono é uma suposta medida universal do impacto no ambiente com foco na actividade e consumo pessoal. E esta definição acarreta um mundo de implicações às costas.

Apesar de oficialmente a pegada de carbono (PC) poder ser aplicada a nível de indústrias, estados-nações ou a título mundial, a realidade é que é quase exclusivamente usada a título pessoal. Isto faz-se por medições per capita ridículas, já que a poluição equivalente em carbono de um estado-nação não pode simplesmente ser dividido pela sua população para resultar nos gastos pessoais em geral. Seja nas apps com cálculos suspeitos nos supostos relógios e telemóveis inteligentes, ou numa folha de cálculo Excel. Isto, porque, ignora o impacto muito mais substancial das indústrias.

Climate change and reducing our carbon footprint - Super Talk

Quando temos em conta que uma das principais promotoras da popularização da PC foi a British Petroleum (sim, essa BP), a intencionalidade deste individualismo torna-se muito óbvia. Claro que a BP quer passar as culpas da sua própria indústria para as pessoas, é o tradicional vício neo-liberal da socialização do problema gerado pelo lucro e benefício privado!

A pegada é uma excelente táctica propagandística de culpabilização: "consumam coisas mais verdes e menos dispendiosas, que o aquecimento global resolve-se". Distraído com este teatro os incautos que ao fazê-lo deixam intacto o sistema e as indústrias que são a verdadeira fonte do problema, enquanto simultaneamente espremem lucro dos produtos (muitas vezes tão poluentes ou com práticas laborais aberrantes) que vendem na falsa alternativa (farsa também serviria).

O símbolo da pegada é curioso, porque denota uma destruição individualista inevitável provocada por todos, quando nenhuma destas duas premissas é verdadeira. A poluição não é inevitável, não é provocada por todos (especialmente pelos cidadãos dos terceiro mundo que topicamente mais sofrem as suas consequências) e a representação de uma patada que destrói florestas é obscenamente falsa.

BP asked people to make a pledge to reduce their carbon footprint and ...

O equivalente de CO2 é uma medida anti-cientifica e aberta a abusos metodológicos e propagandísticos. Porque há muita poluição que se faz além de libertação de CO2, muito mais danosa, e que qualquer equivalência é sumariamente ridícula: seja extinção de espécies, destruição de habitats, genocídios, escravatura, resíduos tóxicos ou nucleares, só para citar alguns.

O problema das alterações climáticas são um problema do capitalismo, do seu sector industrial (então o sector militar... upa, upa!), das suas desigualdades de classe (cada rico poluí por centenas de trabalhadores, e estes poluem por comprarem o que o rico lhes quer vender), ao qual tanto o capital (seja qual a sua cor) não tem resposta no liberalismo. Ter resposta tem, mas é num obscurantismo fascista genocida, que irá realmente abrir as portas para uma verdadeira idade das trevas no seu desespero para manter a exploração de recursos cada vez mais escassos. A escolha é nossa de abrir os olhos e não permitir tamanha tragédia.

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Publicado às 19:20